A crise da carne e a crise alimentar

Nos últimos dias desse mês de Março uma “notícia bomba” atingiu em cheio o Brasil: A carne que todos consumimos todos os dias pode estar contaminada!

Funcionário carrega pedaços de carne em açougue de São Paulo
10/10/2014 REUTERS/Nacho Doce

Não bastava os vídeos e áudios que circularam nas redes sociais nas últimas semanas sobre supostos casos da doença da “vaca louca” relacionada ao consumo de carne contaminada e agora essa notícia cai como uma bomba no colo dos brasileiros.

Alguns “conspiracionistas”, como são chamados pela grande mídia, poderiam até dizer que essa história toda sobre a “Operação Carne Fraca” serve para desviar a atenção dos casos e possível epidemia da doença da vaca louca, ou até mesmo para evitá-la, fazendo com que os consumidores brasileiros parem de comer carne. Mas o fato é que após a denúncia ser divulgada pela grande mídia a nível nacional, essa história toda de carne contaminada deixou de ser teoria da conspiração para se tornar um fato real. Se tivesse sido dito por algum “conspiracionista” antes de sair na grande mídia é fato de que não teria tido nenhuma credibilidade e ninguém levaria a sério, e continuariam comprando e consumindo suas carnes, fazendo seus churrascos e lotando os rodízios e churrascarias como sempre.

Suposto vídeo que circula nas redes sociais que mostra um possível açougueiro exibindo carne que estaria contaminada, segundo o que é falado no vídeo:

 

Áudios que circulam nas redes sociais alertando sobre uma possível epidemia da doença da vaca louca:

 

 

 

 

Carne moída com papelão. Uso de carne estragada na fabricação de linguiças e salsichas. Carnes podres maquiadas com aditivos químicos. Linguiça feita com cabeça de porco. E sabe-se lá mais o quê. A operação da Polícia Federal deflagrada nesta sexta-feira (17) trouxe à tona práticas perversas da indústria alimentícia brasileira — segundo os investigadores, as empresas se importam mais com seus lucros do que com a saúde dos consumidores. Para nutricionistas e organizações de defesa dos consumidores, as investigações revelam mais do que crimes: o Brasil vive uma crise alimentar, já que é cada vez mais difícil saber a origem do alimento que se leva à mesa.

A operação Carne Fraca (qualificada pela PF como a maior da história da corporação) encontrou uma série de irregularidades na fabricação e comercialização de carnes e embutidos. O alvo são grandes empresas de processamento de carnes, como o grupo JBS (das marcas Friboi, Swift, Seara), a BRF (Sadia e Perdigão) e Peccin (Italli). A operação também apura o envolvimento de fiscais do Ministério da Agricultura na liberação de licenças e fiscalização irregular de frigoríficos — fiscais chegaram a autorizar a exportação de carnes com salmonella sem a devida fiscalização. Abaixo, entenda os riscos à saúde que esses alimentos podem causar:

“A gente perdeu a origem dos alimentos”, lamenta a nutricionista Carolina Chagas, diretora da Asbran (Associação Brasileira de Nutrição).

— Hoje você compra uma carne mas não tem a menor ideia de onde ela saiu, por quantos frigoríficos passou, por quanto tempo ficou armazenada. E isso tudo faz com que se tenha que acrescentar uma quantidade infinita de ingredientes para manter a aparência do produto final.

O delegado da Polícia Federal responsável pela operação Carne Fraca, Maurício Moscardi Grillo, afirmou em coletiva na manhã de sexta que algumas das empresas investigadas usavam ácido ascórbico (vitamina C) e outros elementos químicos muito acima do permitido por lei para maquiar o aspecto físico de alimento vencidos e estragados.

— O que interessa para esses grandes grupos é o mercado independente da saúde pública da população. Há uma falsa preocupação das empresas com a sociedade.

À tarde, o MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) convocou uma coletiva para “tranquilizar” a população a respeito dos alimentos brasileiros. Segundo o secretário-executivo da pasta, Eumar Novacki, as carnes que apresentaram problemas foram mortadela, salsicha e aves, além de suspeitas em carne bovina e ração animal.

“Não é um fato cotidiano, são fatos isolados”, disse ele sobre os servidores da pasta envolvidos nas acusações — ao todo, 33 pessoas foram afastadas de suas funções.

— A população brasileira pode ficar tranquila, os produtos brasileiros são de qualidade e é por isso que exportamos para 150 países. Os riscos são muito pequenos, de mais de 4.000 estabelecimentos nós temos 21 sob suspeita.

Os problemas para a saúde da população, no entanto, não se restringem aos estabelecimentos investigados.

“As irregularidades cometidas reforçam que o consumidor deve evitar alimentos ultraprocessados, produzidos a partir de carnes como salsicha, linguiça, nuggets, hambúrgueres e outros”, diz Ana Paula Bortoletto, nutricionista do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor).

Além do alto nível de processamento, Ana Paula também aponta o problema da origem do alimento.

— Estes tipos de produtos são formulações industriais feitas inteira ou parcialmente de substâncias extraídas de alimentos, fazendo com que não seja possível identificar qual a origem da matéria-prima. Dessa forma, a utilização de carne podre e estragada, papelão e pedaços de cabeça em frango, salsicha e linguiça, como identificados pela operação, ficam mascaradas por conta do nível de processamento do produto e a inclusão de aditivos alimentares como corantes, aromatizantes, realçadores de sabor, etc.

Carolina, da Asbran, lembra que as linguiças, por exemplo, são fabricadas utilizando-se também de ossos triturados e farinha, o que é permitido pela vigilância sanitária, mas desconhecido da população.

— O consumidor espera que a linguiça seja um misturado de carne, mas não é. Nós nos distanciamos da forma de fazer os alimentos. Quanto menos processos o alimento passar, como triturar, acrescentar, embalar, refrigerar, transportar, quanto menos etapas, mais próximo de ser comida de verdade ele é.

O que fazer?

A operação da PF levantou desconfiança de internautas nas redes sociais sobre a qualidade dos produtos. Afinal, o que podemos fazer no dia a dia?

“A forma mais segura do consumidor é procurar os menores caminhos”, diz Carolina.

— Se eu sei que tem alguém que produz alimento, então eu compro direto do produtor. Se tem um açougue que estabeleci relação de confiança, porque vejo produto, vejo quais são as peças, então eu compro ali. É diferente de pegar um produto embalado no freezer de supermercado, porque se eu tiver alguma dúvida, não tenho para quem perguntar.

Como o problema é a origem do produto, diz Carolina, fica difícil saber a qualidade do produto por sua cor, por exemplo, ou pelo rótulo, já que todo o processo se contamina.

— Os consumidores ficam à mercê. A solução é traçar estratégias para se aproximar do produtor daquele alimento, estabelecer relação de confiança.

O Idec também recomenda aos consumidores os alimentos in natura, ou minimamente processados e não embalados, além de evitar alimentos ultraprocessados, diz Ana Paula.

Em nota, o Procon de São Paulo lembra aos consumidores que, se possuírem algum produto das marcas envolvidas, “poderá solicitar junto ao fabricante a troca do produto ou a devolução com ressarcimento dos valores pagos. Caso não seja atendido, poderá procurar o órgão de defesa do consumidor da sua cidade”.

Ministro afasta fiscais

Após a deflagração da Operação Carne Fraca nesta sexta-feira (17), que revelou um esquema de pagamento de propina a fiscais agropecuários por parte de frigoríficos para liberar alimentos podres, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, anunciou que vai cancelar sua licença de dez dias da pasta e que já determinou o afastamento imediato de todos os servidores e fiscais envolvidos.

“O que as apurações da Polícia Federal indicam é um crime contra a população brasileira, que merece ser punido com todo o rigor”, afirmou Blairo. Expoente da bancada ruralista, Blairo disse ainda que é preciso separar “o joio do trigo”.

Ministério da Agricultura afasta 33 servidores e lista problemas em mortadela, salsicha e aves

O Ministério da Agricultura disse nesta sexta (17) em coletiva de imprensa que 33 servidores foram afastados após a Operação Carne Fraca da Polícia Federal, que aponta para um esquema de pagamento de propina para fiscais do ministério a fim de liberar carne imprópria para consumo. Dos 33 servidores, quatro foram exonerados nesta sexta-feira (17), após a operação ser deflagrada.

O ministério tem cerca de 11 mil servidores, dos quais 2,3 mil trabalham na área de fiscalização. As informações são do secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Eumar Novacki, em entrevista coletiva.

Japão suspende importações de produtos das fábricas brasileiras investigadas na Operação Carne Fraca

Japão, Hong Kong, China, Egito, Chile e a União Europeia anunciaram medidas de suspensão da compra de carne do Brasil
Getty Images

O governo japonês suspendeu importações de frango e outros produtos do Brasil oriundos dos 21 estabelecimentos citados na investigação da Operação Carne Fraca, deflagrada pela PF (Polícia Federal).

“O governo do Japão suspendeu, até novas notificações, o trâmite das importações de frango e de outros produtos oriundos dos 21 estabelecimentos citados”, afirmou em nota a embaixada do Japão no Brasil sobre a decisão desta terça-feira (21).

Jamaica suspende importação e pede para população não consumir carne brasileira

Diversos países solicitaram esclarecimentos ao governo brasileiro
Dario Oliveira/Estadão Conteúdo

O governo da Jamaica está adotando algumas das medidas mais duras contra a produção e a exportação de carnes do Brasil, após o caso da fraude investigada pela Polícia Federal.

O governo do país caribenho apelou para que a população simplesmente não coma carne brasileira e ordenou que supermercados retirem de suas prateleiras os produtos no setor bovino.

Não é só com carne: leite com ureia e óleo em vez de azeite estão entre fraudes de alimentos no Brasil

Ureia e formol em laticínios são encontrados em análises
BBC Brasil

Adulterar um produto para ter ganhos comerciais não é particularidade da indústria da carne no Brasil, como foi exposto pela operação Carne Fraca, da Polícia Federal. Estudos e ações pontuais mostram que o crime é praticado para maquiar outros alimentos que chegam à mesa dos brasileiros.

Não é só com carne: leite com ureia e óleo em vez de azeite estão entre fraudes de alimentos no Brasil


Quais empresas são investigadas?

Foram alvo de busca e apreensão os seguintes frigoríficos:
Big Frango Indústria e Com. de Alimentos Ltda.
BRF – Brasil Foods S.A. (dona de marcas como Sadia e Perdigão)
Dagranja Agroindustrial Ltda./Dagranja S/A Agroindustrial
E.H. Constantino
Frango a Gosto
Frigobeto Frigoríficos e Comércio de Alimentos Ltda.
Frigomax Frigorífico e Comércio de Carnes Ltda.
Frigorífico 3D
Frigorífico Argus Ltda.
Frigorífico Larissa Ltda.
Frigorífico Oregon S.A.
Frigorífico Rainha da Paz
Frigorífico Souza Ramos Ltda.
JBS S/A (dona das marcas como Friboi, Seara e Swift)
Mastercarnes
Novilho Nobre Indústria e Comércio de Carnes Ltda.
Peccin Agroindustrial Ltda. (dona da marca Italli Alimentos)
Primor Beef – JJZ Alimentos S.A.
Seara Alimentos Ltda.
Unifrangos Agroindustrial S.A./Companhia Internacional de Logística
Breyer e Cia Ltda.
Fábrica de Farinha de Carne Castro Ltda. EPP

 

Fontes:
http://noticias.r7.com/saude/brasileiros-vivem-crise-alimentar-e-estao-longe-de-comida-de-verdade-18032017

http://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/carne-fraca-perguntas-e-respostas-sobre-a-operacao-da-pf-nos-frigorificos.ghtml

http://noticias.r7.com/brasil/operacao-carne-fraca-ministro-afasta-fiscais-17032017

http://noticias.r7.com/brasil/carne-fraca-ministerio-da-agricultura-afasta-33-servidores-e-lista-problemas-em-mortadela-salsicha-e-aves-17032017

http://noticias.r7.com/brasil/japao-suspende-importacoes-de-produtos-das-fabricas-brasileiras-investigadas-na-operacao-carne-fraca-21032017

http://noticias.r7.com/economia/jamaica-suspende-importacao-e-pede-para-populacao-nao-consumir-carne-brasileira-21032017

http://noticias.r7.com/brasil/nao-e-so-com-carne-leite-com-ureia-e-oleo-em-vez-de-azeite-estao-entre-fraudes-de-alimentos-no-brasil-21032017

 

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